sexta-feira, 2 de setembro de 2016

A História Por Trás de Uma Capa Preta...

O ônibus estava lotado, eu não conseguia vê-la, mas sabia que estava lá. Podia sentir, captava sua angústia, sua indecisão e, acima de tudo, seu medo.
Ela não estava só. Além de mim, vi outros que a acompanhavam. Eu os via, mas eles não me notavam. Eram de outra faixa vibratória, pertenciam ao passado e tentavam envolvê-la com uma energia densa e pegajosa. Sempre que faziam isso ela ficava mais nervosa e também mais decidida.
À medida que o ônibus avançava pelas ruas centrais da cidade, mais pessoas entravam e o coletivo continuava a correr em direção à periferia. Ela estava lá, meio deslocada, olhando com insistência um pedaço de papel que continha o endereço que, segundo ela, mudaria seu destino.
Ela deu o sinal, o ônibus parou e descemos. Aqueles que a acompanhavam vibraram, pois ela estava na iminência de servir como instrumento na vingança que planejam há muito tempo. Vibraram com tanto ódio, que ela enfureceu-se consigo mesma. Pensava sem parar em como tinha deixado se envolver com aquele rapaz e que tinha que resolver isso sem que seus pais soubessem.
Ela verificou mais uma vez o número anotado e percebeu que estava perto. Logo chegou a uma casa humilde, como todas as outras ali do bairro, tocou a campainha e foi atendida por uma senhora, que faria o serviço. A mulher a analisou rapidamente, já tinha visto muitas moças iguais a ela, pediu-lhe o dinheiro e mandou que esperasse porque tinham duas mulheres na sua frente. Ela sentou-se pacientemente e aguardou.
Eu tive que agir rápido, vibrei minha espada no ar e os seres trevosos que a acompanhavam, estarreceram ante minha presença. Fatalmente eles me notaram, saíram da casa e ficaram do lado de fora tentando contatar outros para vir ajudá-los. 
Aproveitei para me aproximar dela e envolve-la com minha capa. Ela se acalmou por um instante e já não tinha mais certeza se deveria continuar. Eu vibrei em seu mental para que saísse dali e fosse tomar um ar fresco. Ela me atendeu, sem nem mesmo saber, e quando chegou lá fora, ainda envolvida por minha capa, tornou-se invisível para os que a acompanhavam.
Me materializei e ela se assustou ao me ver, tentando voltar para dentro da casa, mas eu a impedi. Chamei ela pelo nome e lhe disse:

"Não deve me temer, venho em paz e tenho uma única missão no dia de hoje: impedir que você faça esse aborto e traga esse espírito ao mundo."

Ela me olhava assustada, mas continuei: 

"Não importa se a concepção foi fruto de uma aventura, deve deixá-lo vir. Será uma menina linda, que veio do passado para cumprir uma grande missão. Sei que as condições não são as melhores, que o rapaz não é fácil e que seus pais não aprovarão, mas eu sei que você vai conseguir. Eu prometo acalmar todos e te proteger."

Ela começou a chorar e buscava entender como estava me vendo e ouvindo com tanta clareza. Apesar de achar que ela faria várias perguntas, fez a mais simples de todas:

"Como devo lhe chamar?"

"Me chame de Capa Preta, sou um Guardião. Protegerei você e a menina que carrega no ventre com a minha capa. Estarei ao lado dela a vida toda, lhe acompanhando, guiando e, portanto, ela nada deve temer."

"Ela irá lhe conhecer?"

"Na hora certa, Maria"

Ela chorava, mas consentiu. Avançou pela rua, pegou o ônibus, voltou para casa e assim como o prometido, acalmei seus pais e lhe protegi durante toda a gravidez.
A menina nasceu no tempo certo, linda e saudável. Cresceu e aprendeu a ser forte. Estive sempre ao seu lado e aos poucos fui me apresentando, sem ela perceber.
Quando tinha um pouco mais de uma quinzena de anos, foi convidada para conhecer um Terreiro de Umbanda e movida pela curiosidade, ela aceitou. Gostou tanto que passou a frequentar. Era longe, demorava a chegar, mas ia toda feliz para lá e eu cuidava de sua proteção e daqueles que seguiam jornada junto a ela, na ida e na volta, desviando-os do caminho sempre que preciso.
O tempo foi passando até que ela recebeu autorização para participar de uma Gira da nossa banda. Eu estava ansioso porque já tinha conversado com os Guardiões responsáveis daquele terreiro (amigos de longas datas) e eles tinham permitido que eu me apresentasse. Sim, tinha decidido que naquele momento ela iria me conhecer como quem eu era e não mais como o amigo que lhe ajudava a levantar depois dos tombos de bicicleta, que ficava ao seu lado nas noites frias enquanto ela chorava na rua sozinha, ou que lhe deixava em casa em segurança toda vez que insistia em sair sozinha e voltar tarde...
A Gira tinha começado fazia pouco tempo e logo a encobri com a minha capa. Ela se arrepiou ao sentir a minha força e lhe disse o meu nome:

"Sou o Exú Capa Preta e estive te acompanhando, protegendo e guiando todos esses anos. Eu te trouxe aqui essa noite para me apresentar. Temos muito trabalho pela frente, por isso, é preciso estudar e aprender tudo o que puder, porque chegará o dia em que irá ensinar. Lembre-se: você nunca estará sozinha."

Ela mais uma vez me surpreendeu pois não sentiu medo ou nervosismo, sentiu admiração, proteção e respeito, e desde essa noite conversamos constantemente de maneira silenciosa.
Como havia lhe dito, ela aproveitou as oportunidades: estudou e se dedicou a ler um pouco de tudo, tirando dúvidas sempre que necessário; aprendeu e observou tudo com a máxima atenção; desenvolveu e conheceu cada um de nós de todas as maneiras. Ao longo de sua jornada foi fazendo inúmeras obrigações, cada uma delas com um fundamento diferente, todas realizadas com muito amor, e naquele momento eu não tinha palavras, me orgulhava cada vez mais dela e da pessoa que estava se tornando. Tinha certeza que a espiritualidade que a cercava na outra esfera também se orgulhava. Ela cresceu forte e tinha aprendido as bases desse plano: humildade, caridade e respeito.
O tempo tornou a passar até decidirmos que ela estava pronta para abrir uma Casa e ter o seu próprio chão, nosso chão, para cumprir com amor e carinho sua missão e nos dar a oportunidade de continuar a nossa.
E eu? Vigio constantemente cada um daqueles que cercam a ela e o chão sagrado que usamos com respeito para trabalhar, porque quando percebo que alguém, de alguma maneira, esta indo pelo caminho torto, trato de avisar, e quando percebo que alguém tem a intenção de prejudicá-la ou a qualquer um que seja fiel a espiritualidade que trabalha ali, trato de distanciar de lá.
Nunca a abandonei e desde aquela noite me apresento sempre que necessário para cumprir com o que nos foi designado, amparando-a nessa longa caminhada...


Eu encontrei esse texto há algum tempo na internet e aos poucos fui adaptando-o para uma realidade parcialmente vivenciada, por uma pessoa muito especial. Por isso, não deixo de dar os devidos créditos ao autor ou a autora.
Gostaria ainda de ressaltar que o título foi inspirado no livro da Elaine Paceli "As Leis Por Trás de Uma Capa Preta."

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